Teoqüentun

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Teoqüentun

Mensagem por dr_Hardman em Qui Dez 26, 2013 8:20 am

Othen em Lenjith


Othen. Senhor da guerra. General de deuses. Encarnação do fogo e do aço a colidir em campo de batalha. O inquestionavelmente mais poderoso combatente do universo.

Mas como um deus, ele parece relapso.

Ele não era um dos Originais, mas mereceu seu posto ao lado de Sargan e Yius quando os próprios elementos da existência desafiaram os deuses. Mas desde essa primeira guerra, Othen Mighter cultivava o hábito de deixar seus domínios e vagar pelos domínios de outros deuses, inclusive seus antagonistas no panteão, e desafiá-los.

Um deus em seu habitat seria todo-poderoso. Mesmo Othen seria aniquilado se ousasse deixar de ser respeitoso com o desafiado. Mas o Universo sabia que o espadachim de Lancastorm era sua arma mais poderosa quando os Poderes do mundo forem desafiados. Os mortais possuem a ilusão de que os Regentes das Almas são onipotentes, mas a cada era que se passa, pretensos inimigos da realidade espiam, aguardando uma chance de confrontar os herdeiros do Uno. Assenhorarem-se da Eternidade e por consequência de Meliny.

Então, Entende-se que O Vermelho está sendo sábio em sua postura exótica. Primeiro, passa a mensagem: "Vocês não gostam de mim, mas estou aqui. E vocês não ousam fazer nada para desdizer". Ele reafirma seu posto. E enfim, se um dia algum dos seus irmãos acreditar que ele passou dos limites, desafiá-lo e derrotá-lo, seria a ordem natural das coisas. Um guerreiro melhor erguendo-se. Othen pereceria satisfeito.

Não se enganem. Othen é respeitoso com aqueles que mantém o universo ao seu lado. É cordial com os deuses bélicos, e respeitoso com os deuses pacatos. Mesmo os caóticos e agressivos tem sua posição reafirmada e atitudes igualmente transgressoras tratadas com paciência. Daí surge um pequeno livro do Teoqüentun que narra histórias das andanças de Othen. Em especial por colocar de lado a figura do bruto pouco sábio que ele costuma ser retratado nos livros principais.


ANDANÇAS - Lenjith

Uma grande cidade de torres altas surge entre frestas de inexplicáveis montanhas áridas, muitas vezes estreitas demais para o colosso de armadura de brasa viva passar sem postar-se de lado. As protuberâncias de sua armadura arranhava a fachada dos prédios que ousavam ser um obstáculo ao Guerreiro Rubro.

As ruas estavam desertas. O senhor da Guerra sabia que aquilo não era bom. Esteve nessas terras por várias gerações, em andanças aleatórias, para saber que aquele plano populoso só exigia um vazio tão intenso quando algo desagradável estava a ser feito. Mesmo assim, foi muita audácia aqueles três ganchos ínfimos, presos a cordas invisíveis enroscarem na empunhadura de Lankcastorm, a Espada da tempestade de fogo.

Espectros eram indistinguíveis de mortais quando nos planos elevados. Aqueles eram ladrões oportunistas bem-sucedidos em vida, e agraciados como cidadãos sob a sombra de Naron quando seu tempo acabou. Em Lenjith, seu prêmio era eternas oportunidades... Então mesmo o senhor da guerra questiona se o fato dele ser quem era foi o que motivou aquela heresia.

Lancastorm era pesadíssima. Os três cabos, puxados por cinco homens, mal a moviam da bainha. A quantidade de força e destreza para içá-la era tremendas. Se não fosse um guerreiro perfeito, Othen poderia se ver na frustrante situação de estar sem sua espada em alguns metros.

Othen usou do próprio peso, em um movimento brusco, para quebrar as roldanas de fixação e trazer dois dos ladrões para o solo, após três metros de queda. Um deles, particularmente desafortunado, caiu quase aos pés do Deus da Guerra. Sentia o calor da armadura mesmo com pouco menos de meio metro de distância do colosso rubro.

- Não... Não me mate! - urrou enfim. - Piedade, meu senhor!

Aquilo enjoava o Guerreiro. Covardia demais até para fugir. O hábito de pedir que não o "matasse" era um indício de dissociação de sua vida terrestre.

- Você não é digno de meu aço. - fala Othen, talvez por tédio, talvez por suspeitar que era mais um dos infindáveis disfarces de Naron.

O oportunista ergue-se, surpreso, mas com idéias em sua mente.

- Então... O senhor não pode me matar por eu não ser digno?!?

Othen para, e olha por cima do ombro os colegas do bandido.

- Eu não disse isso. - retruca. - Apenas os mais nobres dentre os mais nobres, os mais poderosos dentre os mais poderosos, merecem atenção de minha espada em combate. Mas eu sou um deus. Posso fazer coisas indescritíveis com sua alma sem precisar sujar minhas mãos.

Grandes campeões de outras eras, na iminência de batalhas grandiosas que os tornariam lendas, tiveram menos tempo da atenção do deus da guerra que aquele bandido oportunista. Chegou ao ponto em que Othen deu as costas e voltou a marchar, buscando a torre de Naron.

Mas aquele pequeno bandido não compreendia a sorte que tinha. Acostumado com algumas décadas no Paraíso de Naron, acreditou que era um blefe do colosso, cuja fraqueza havia sido descoberta.

- ATAQUEM! ATAQUEM! - urrou então.

E outras sombras surgiram. Ganchos similares foram arremessados, mas estas tinham pontos supostamente vulneráveis da armadura como alvos. E seguiam-se adagas. Othen calculava quinze agressores, metade destes insistindo em permanecer invisíveis, e cinco com tamanha ousadia que se juntaram ao "líder" em um assalto corpo-a-corpo.

Mãos mortais ousaram tocar na armadura de Othen, e se queimaram profundamente. Queimadura que nem com um novo corpo sumiriam.

Lâminas menos do que dignas tocaram a armadura, ficando rubra por um momento, e um dourado de fogo vivo à medida que insistiam em golpes que se repetiam à medida que o senhor da guerra, ainda estupefato com a ousadia, assistia aquele linchamento. Só quando as adagas e espadas curtas de material menos que respeitável liquefaziam em metal derretido os espadachins paravam seu ataque, mas apenas no tempo em que pegava outro objeto ainda menos digno.

Aqueles rostos de ladrões de outrora ficaram marcados na memória de Othen. Cada um deles deveria pagar por tal afronta. E então, aquele que já trocou golpes com Ignathus deu um pizão sísmico. Uma fração ínfima do descontentamento de Othen, o bastante para por abaixo os seis prédios mais próximos de si, e abalar profundamente várias das construções daquela ruela. Os bandidos que estavam mais perto se elevaram numa onda de choque e foram projetados com violência em uma linha reta para o mais distante possível do Deus da Guerra. Os do edifício estavam ainda soterrados.

- Olhem! - urra um deles, debaixo de uma pedra. - Ele pegou a espada! Ele pegou a espada!

Othen pensava nas maldições que faria às almas dos hereges ladrões, em como iria caçar descendentes vivos daqueles ousados vermes que tocaram um deus. Mas o instinto falou mais alto. Lancastorm não havia sido desembainhada, mas a mão direita firmava-se sob o cabo.

Aquilo era uma honra sem tamanho para os maiores guerreiros produzidos por Eternidade e por Meliny, ceder um impulso de luta ao Mighter, a Montu, a Akai Tatsusama. Aquilo abala a confiança do deus.

Enfim, a marginalia aprende o óbvio e faz o melhor que poderiam fazer diante de Othen - que é correr tão rápido e tão longe quanto a eternidade pudesse permitir - mas sem saber que suas almas imortais foram salvas. Pois a fúria de Othen foi desviada daquele pequeno enxame para um único de seus integrantes.

Parecia humano quando Othen agarrou-o pelo colarinho e o arrastou debaixo da pedra. Parecia um elfo negro com um olho só quando estava à altura dos olhos de Othen. Não, Naron não era o primeiro bandoleiro. Não precisava ser. Bastava ser um dos que sussurraram a idéia daquela heresia e assistir divertindo-se com as conseqüências.

- Da última vez que ousou tocar Lancastorm ... - fala o colosso. - Eu arranquei seu olho. Mesmo assim ousa repetir o feito?!?

- Meu caro irmão... Minha mão nunca esteve sequer perto de seu precioso símbolo. - fala o Deus dos Ardis com leveza infantil em sua voz. - Mas se eu bem conheço suas regras, aqueles que hoje correm são dignos de terras e glorias em seus domínios, não? Deveria convidá-los para ser generais de suas falanges! Governar fortes de espinhos. Quem sabe, alguns devotos no mundo dos mortais!

Othen desce o senhor dos assassinos tão gentilmente quanto pode até o solo, e larga suas vestes. Então, dá um passo para trás.

- Se era de seu desejo provocar minha fúria e me fazer apanhar minha arma, irmão... - Fala Othen com uma voz grutal. - Não precisava de uma peça elaborada com almas perdidas. Bastariam duas palavras ... "Eu"... e "Aceito".

Naron é onipotente em seu domínio. Mesmo assim um discreto arrepio corre sua espinha. Poucos dentre seus iguais sentiram o ardor de Lancastorm contra sua pele sacra. Poucos possuem intelecto para saber as consequências de um combate entre dois deuses maiores, mesmo se terminasse vitorioso. Mas muitos sabiam o que Othen poderia fazer uma vez engajado em combate. Mas esses pensamentos são habilmente ocultados pelo senhor da dissimulação.

- Ah, isso de novo... - Fala com um ar de entediado. - Um dia eu possa me dispor de lhe fazer este pequeno agrado, "irmão". Mas realmente sou muito ocupado. E francamente, tenho rivais jogando em meu nível para manter minha atenção. Descer ao nível daqueles que resolvem as coisas com espadas... Não sei como colocar sem parecer ofensivo... Mas está tão... Abaixo do que representa ser um Deus...

O grande elmo com chifres pende de um lado para o outro. Othen realmente não imaginaria que sua sede por uma batalha grandiosa fosse ser saciada naquele dia, mas mesmo assim se desaponta.

- Então seguirei como sempre fiz em minhas andanças. - fala enfim, voltando a caminhar. - Permanecerei aqui até que minha presença seja incômoda o suficiente para um de nós tomar uma atitude para encerrá-la... E infelizmente, serei eu o primeiro a ceder.

Naron gargalha e começa a caminhar ao lado do Deus da Guerra.

- Mas sua presença não incomoda, Meu caro. Eu juro que anseio quando algo diferente ocorre em meus domínios. Somos senhores de nossos conceitos... E o meu é, por se dizer, estável demais. Você não saberia o que é ver que tudo sempre seguirá conforme você ensina. Preciso de novos ares.

- Equivoca-se em sua afirmação. - rosna ofendido Othen. - A vitória pode estar de um ou outro lado, mas a Guerra é a mesma.

- Sem querer ofender, repito... - fala Naron. - Mas se você cortar a cabeça de um homem... Não, se arrancar o crânio do maxilar, e jogá-lo no chão, e ele ainda tiver vida e consciência, e a língua, esse único músculo, ainda estiver vivo, a cabeça usará movimentos desta língua para se afastar para longe daquele que o mutilou. Eu ensino a sobrevivência. Sempre a atitude é a mesma. Sejam homens, sejam animais. A atitude mais óbvia e melhor para se viver. Já a guerra, preceitos são perdidos.

- Perdidos por aqueles que não seguem os ensinamentos de honra. - responde Othen. - Se este que foi mutilado reconhecer que seu mutilador o superou com dignidade, aceitaria seu destino.

- Vejo que está aberto a metáforas. - fala Naron esfregando as mãos com satisfação. - Permite-me então contar uma história? Servirá para provar meu ponto contra o seu.

Othen dá alguns passos em silêncio. Certifica-se que uma resposta era esperada. Enfim, responde:

- Na pior das hipóteses, sua história me entedia a ponto de me fazer deixar seus domínios. Não vou me opor.

Naron sacode a cabeça jocosamente, adianta-se à frente do poderoso guerreiro, quem não para de caminhar, e começa a narrar:

(...)

Imagine uma aldeia de homens, muitos anos atrás, na aurora dos reinos antigos. Numa região afastada e por isso, abandonada à própria sorte. Mas cuja luz de Luminahak os alcançou a ponto de começar a se civilizar... Nada grandioso, apenas algumas vilas, uma ou outra fazenda sedentária. E assim, essa bucólica área permanece por muitas e muitas primaveras.

E então, um forte é erguido. Talvez pro estrangeiros, talvez por pessoas insatisfeitas com a paz e que começavam a rascunhar as artes de um certo deus vermelho. Eles não o chamavam de "Othen", mas de outro nome... Mas era você que eles tinham em mente em suas orações. Eles se tornam um exército respeitosamente forte. E com sua força, exige dos pacatos aldeões das zonas vizinhas que prestem oferendas e donativos na forma de produto ou de trabalho.

Os agricultores e os que vivem das vilas não gostam de dar seus pertences a outros. São apegados a suas posses como qualquer mortal o é, mas o forte possuía cem soldados, todos fortes e bem-treinados. Poderiam aniquilar as aldeias se quisessem. Então, o equilíbrio entre dominantes e dominados se instaura. Por mais algumas primaveras. Só o suficiente para os mais velhos lembrarem quando não eram dominados pelo Forte, pelo medo.

Então, um herói que estava de passagem é encontrado pelos dominados. Mesmo aquela região afastada conhecia os feitos de guerra daquele combatente de grande poder. Ele seria uma chance de esperança? De libertação? Não. Ele seria mais poderoso que qualquer homem na região, mas o Forte possuía um exército. Cem guerreiros. Não havia como o herói, sozinho confrontar aquele forte. Mesmo se fizesse um exército com os camponeses, seriam massacrados.

Mas o herói tinha um plano. Ele certifica-se que o Forte é ferrenho praticante dos ensinamentos do Deus da Guerra. Seus líderes cumpriam a risca todo o rito, de forma exposta mesmo para os incultos e fracos dos seus dominados. E então, caminha sozinho para o forte, munido só de sua espada e armadura, e desafia o exército.

Veja bem: Não confronta o exército. DESAFIA! Nem desafia um ou outro dos senhores do forte... Desafia o Exército INTEIRO!

O Desafio - imagino que sendo o deus da guerra o senhor sabe, meu irmão - exige que lutem os desafiantes em igualdade de condições, igualdade de armas. Mas como seria uma condição igual um homem contra um exército?

- Um de cada vez.

O herói era um campeão conhecido. Era digno de cruzar armas com devotos. Não poderiam recusar o confronto. Então, os cem fizeram uma fila, e o herói iria lutar com eles... Um por um.

O primeiro, claro, era o general. O mais poderoso guerreiro do forte. O único com alguma chance de vitória contra o herói. Seu duelo foi belíssimo, um tirando sangue do outro. Mas no final, o herói triunfou.

O aprendiz do general, seu melhor e mais fiel subordinado, é o segundo. Mesmo com o herói ferido da primeira luta, aquele duelo não foi tão equilibrado. O máximo que o discípulo conseguiu fazer foi cansar o herói que teve de arrancar o crânio do resto do corpo. Com a língua, o crânio tentou correr para longe de seu mutilador.

O terceiro da fila prontifica-se. Era a sua vez. Mas o herói disse para parar. Estava cansado. Tinha lutado com os dois mais poderosos campeões da região, estava ferido e cansado. Pediu que repousasse para recuperar as forças. Os soldados estavam irritados, mas o dogma do deus da guerra exigia igualdade de condições. Os herdeiros dos dois combatentes caídos aplicam a lei, e todos se recolhem para repousar.

Na manhã seguinte o herói, curado e repousado, retorna. Ele derrota o terceiro sem nenhuma dificuldade. E o quarto, o quinto, o sexto, sétimo e o oitavo. Enfim, ele se julga cansado, e clama a mesma lei. Aqueles que sobreviviam percebem o plano do herói, mas deveriam respeitar o dogma, mesmo ao custo de suas vidas. Controlam os protestos dos cadetes mais novos e marcam para a manhã seguinte que continue a luta.

No terceiro dia, ele matou sete. Do quarto em diante, ele matava de dez em dez. No oitavo dia, os guerreiros restantes eram tão fracos em comparação aos primeiros que o herói fez quinze vítimas ao Invés das dez tradicionais, e enfim, clama pelo descanso concedido pelos líderes do forte.

Mas desta vez foi diferente. Todos os guerreiros mais treinados, mais sábios e mais fortes estavam mortos. Dos cem, só restavam vinte e cinco soldados mais rasos. Para estes, com menos vivência, os dogmas do deus da guerra não eram tão fortemente assimilados. Os mais velhos foram com honra para seus domínios, irmãos. Os mais novos, se viram em maior número diante de um homem cansado que matou seus mentores e pais. De um homem que nos próximos dois dias provavelmente mataria todos eles.

E então, os últimos soldados do forte cuspiram no dogma da guerra honrada e lincharam o herói ferido e cansado. Esquartejaram seu cadáver para que cada uma das vinte e cinco lâminas ainda vivas pudessem provar do sangue dele.

Enfim, a paz retornou ao forte. Mas agora, eles contavam com um quarto de sua força original. Menos, se considerar que só os últimos a serem escolhidos para o duelo restavam. Então, eles não viam a população camponesa tão diferente de um herói que só bastava se restabelecer para voltar um dia e terminar o serviço. Eles marcharam sobre as vilas e chacinaram os moradores. Quase todos os homens foram mortos, e o único ato de compaixão por gerações vindouras foi abusar das mulheres.

Com as primaveras, novamente o equilíbrio entre o forte dominador e as aldeias retornou. Os mais antigos do forte agora eram os que restaram dos vinte e cinco, que passava novamente o Dogma do deus da guerra para os mais novos. Mas convenientemente, certas cortesias ditadas pelo deus simplesmente foram abolidas.

(...)

Othen ouviu a história em silêncio. Nem mesmo Naron sabia se ele reagia à narrativa.

- Vê, irmão? - fala enfim. - Mesmo os nobres podem simplesmente não ter tempo para ensinar aos seus seguidores a verdadeira fé, mas a sobrevivência, está no âmago de cada um. Chega a ser anti-natural que um grupo inteiro aceite uma chacina por um único indivíduo petulante. Entende o que eu digo? Você, de seu trono de espadas, olha para um forte e fica na expectativa... "Será que eles seguirão meu dogma"? "Terão eles fé no caminho honrado da guerra ou eles trairão o deus da batalha em troca de mais alguns anos de vida? Os que sobreviveram eram mesmo dignos de mim"? Quando eu vejo os ladrões que tomam o que precisam para sua vida ou para sua vaidade... Quando vejo assassinos escolhendo sempre a própria sobrevivência em detrimento da do próximo, sei que mesmo se eu não estivesse aqui, eles tomariam a mesma atitude. Você é um privilegiado, senhor da Guerra. Pois falhar em seus conceitos mais básicos é uma opção, enquanto no meu caso é anti-natural.

Naron era a encarnação do egoísmo. Mas era aquele golfar de luta por ar de um recém-nascido ao deixar o útero da mãe. Aqueles que buscam o dragão sombrio, o elfo esquivo, ou o homem traiçoeiro, vão além de honra, bem e mal. Eles só conhecem o universo de seus sentidos. O que pode ver, ouvir, cheirar e sentir. Sentir fome é ruim, então eles roubam. Sentir dor é ruim, então eles a infligem em outros.

Morrer é "não-viver". Então eles matam. E quando só assim eles podem perdurar, nem é injustificado que o façam. Os deuses o fizeram com os Elementais na Primeira das Batalhas.

Se um é mais forte, eles se juntam em três e quatro. Ou batem quando seu algoz não está esperando. Isso é comum a qualquer mortal, e alguns dos imortais igualmente.

A Guerra aprendeu uma dura lição naquela visita. Uma lição que não esqueceria.
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Re: Teoqüentun

Mensagem por dr_Hardman em Qui Dez 26, 2013 8:21 am

O Teoqüentun é um livro de doutrina que usava um linguajar simples para caquetizar comunidades ainda se formando nos primórdios da civilização. Definitivamente não é um livro de história.

Deve ser considerado parábolas. Ainda que passe informações questionáveis sobre relações entre os deuses ou mesmo alguns eventos que nos doutrinaram em cadeiras acadêmicas mais profundas. Yius não é um rei que fica num castelo e sai coincidentemente quando algum mortal tenta de suas malandragens para aprender uma lição sobre a vida ou ser castigado. Naron e Othen não são uma dupla de aventureiros que se metem em "confusões" por seus comportamentos dispares alcançando a grandiosidade quando um compreende o outro.

Bem, eu espero que não.

Contudo, nas ruínas de Larsargh, outrora uma importante região para os anões primitivos, há a “Muralha de Ametista”, uma extensão de rocha dentro de uma caverna com runas de saberes antigos, embora desorganizados, talhados em rocha nua que era ornada naturalmente pela pedra semipreciosa que a nomeia. Normalmente, eu não o enquadraria como livro do Teoqüentun, contudo, houve citação direta ao grupo de livros.

Ainda há trabalho de tradução para indicar como aqueles conhecimentos se relacionam com as tradições antigas que estou catalogando, pois não só trata de assuntos mais conceituais, mais profundas e diria acadêmicas do que as parábolas tradicionais, como também os deuses não são protagonistas.

São os demônios, e de certa forma, nós.



O LIVRO DO INFERNO



Guthyr Macetower, Andarilho explorador anão, auxiliou-me à medida de suas habilidades na tradução. Fez-me entender que não só os dialetos anões modernos e o da Muralha estavam separados por algumas dezenas de milênios como a própria forma correta de ler os textos era complexa. Temo que a mensagem possa não ser a verídica, por isso, creio que o que apresento seja menos de 10% do conteúdo informativo da Muralha... Mesmo o trecho que cita o Teoqüentun está fora do que transcrevo.

O primeiro trecho foi um choque, pois é um entendimento de um mestre. Ele diz que, quando a criança perguntar sobre "céu" e "inferno", deve explicar que o primeiro é o lugar aonde as pessoas boas vão para ser lembrados para sempre, por seus parentes, ou por sangue em suas veias, mas o Inferno é destinado às pessoas más. Aqueles que devem ser esquecidas... Com a observação que o verbete "esquecido" pode, em alguns dialetos anões, ser interpretado por "perdoado".

O trecho seguinte explica, tal qual um livro de treinamento de mestres da religião que com a maturidade, que as crianças devem perceber que alguns deuses são consideravelmente severos... E essa severidade pode ser entendida por "o mal". Uma vez que seus questionamentos cheguem a este estado, deve-se ter uma conversa séria sobre o espírito, mas deve estar certo de uma coisa: Mesmo o mais terrível dos domínios de um deus não deve ser chamado de Inferno.

"Inferno é outra coisa", diz claramente o texto.

Existe uma falha na referência entre este trecho inicial e o seguinte. Pelo que entendi, era uma breve narrativa sobre a Guerra primordial, na qual os Grandes Deuses se tornaram regentes de Meliny e do destino de todos. Não me sinto seguro em postá-los. Basta seguir com esta idéia.

Os deuses chamam de "Inferno" algo que devemos imaginar como "o esquecimento"; que, por motivo de leis do cosmo ou obediência a um cruel ditame dos deuses, devemos considerar que aqueles que lá foram, não existem. Ou não deveriam existir. Os verbetes são novamente conflitantes, mas a mensagem que passarei meio que transmite uma informação curiosamente mais profunda.

Do lado dos que "não existem", as identidades se perderam. Seres e conceitos que não o são vagaram pelo caos infinito sem identidade e sem motivo para o ser. Foi uma degradação lenta, mas o infinito tempo deu combustível para que aquilo que não existe se tornar outra coisa... Algo que sequer se reconhece.

Em nossa doutrina tradicional, sabemos que os Grandes Primarcas Elementais eram esses seres derrotados pelos deuses e banidos para Incarna. Alguns dizem que eles ainda afetam nosso mundo com uma sombra de suas presenças nas estações dos anos ou nas marés... Nem vou entrar nesta ceara. Mas é um entendimento comum que do que outrora foi os Primarcas Elementais tornou-se a vívida hierarquia infernalista além do abismo. Nomes como Felgoz, Argash, Chellar, Azmor, Caãnih, e títulos como "o caído", "sol tirano", "príncipe da corrupção" e "mercador de almas" surgem nas histórias de aventureiros por todo o mundo.

Então, como uma ancestral raça teria mudado tanto?

Partindo do ensinamento do "livro do Inferno" do teoqüentun, daquela muralha no coração de Larsargh, aqueles contemporâneos da primeira guerra decaíram juntos, de príncipes do universo a espectros sem identidade. Até que receberam algo.

Uma única alma.

Algum mortal incógnito e insatisfeito com sua vida clamou por forças ocultas e desprezadas pelos deuses – aos quais, em seu conceito mesquinho e egoísta "não devia coisa alguma". Este foi o primeiro em éons a cruzar o abismo, e como tal, foi perdido para sempre do outro lado, incapaz de voltar.

Esta foi a primeira alma oferecida ao esquecimento, pois nem os deuses punem seu mais desgraçado ofensor com a perdição naqueles domínios.

Pelo texto, esta alma foi apanhada por um dos espectros. E ele a "provou". O verbete era mesmo degustativo, mas creio que o sentido pode ser outro. Dizem que este ficou extasiado, pois mesmo aquele ser mesquinho que se aventurou por mares proibidos e hereges tinha tido uma vida muito mais plena do que os infernais que viviam nas sombras.

Houve, mesmo que por uma fração de segundos, amor na vida dele. Houve, muito mais comumente, o ódio. Houve a vida, a memória, a experiência, os sabores dos alimentos. Houve a dor. O orgulho ferido. O bem e o mal que viveu, ainda que brevemente, era muito mais do que as sombras sequer consideravam possível.

Mesmo em um período curto como uma vida, mesmo se considerar que aquele primeiro herege tenha vivido ao limite de seu tempo mortal, era infinitamente mais do que os espectros dos "banidos" tiveram em períodos de tempo próximos a infinito. Aquela alma foi motivo de guerras entre esses seres. Guerras e alianças. Em motivação para deixar a inércia em que viviam e, na falta de termo melhor, "produzir".

O desespero por um produto tão raro levou os demônios a reproduzir o pouco que sorviam da Primeira Alma. Do amor que sentiam, criaram possessão, luxúria. Do ódio, criaram medo e terror. Intolerância. Mesmo do cheiro das flores e do sabor das frutas eles criaram a ganância e a gula.

Da total inércia, reinos e raças demoníacas foram criadas centrados em algum destes abstratos conceitos. Não satisfeitos, os demônios quiseram saber a origem daquele elixir tão precioso, e redescobriram a Terra do meio (em muitos idiomas, uma referência a "Meliny"). Petardos de energias incalculáveis de origens primitivas foram gastos. Forças que não deveriam existir pela lei dos deuses. Tudo isso para que o Inferno fizesse contato.

E do sabor daquela alma, os demônios aprenderam o que oferecer aos mortais. Uma forma pervertida, e muito mais fácil do que a merecedora obediência da lei e dos deuses poderia estar ao nosso alcance em vida ou quando nos reuníssemos com nossos pais criadores.

E assim mais almas cruzaram o abismo. Imagino que a tradição dos pactos infernalistas seja o mais preciso, mas não encontro verbetes endossando isso. Em alguns dos trechos suprimidos do presente estudos, é entendível que surtos de cólera e violência, ou de desapego, vaidade, orgulho, mesmo por partes de seres mais elevados - mesmo deuses menores e (oh, heresia) maiores eram fruto dessa busca.

Fato é que existe o "mercado de almas" além do abismo. Bruxos desprezíveis sacrificam animais e seres senscientes para patronos diabólicos em troca de benefícios e poderes. Almas particularmente puras ou particularmente odiosas são desejadas por seres abissais com perversão doentia e valores equivalentes a reinos. E a essas almas, uma eternidade de tortura e privação é o único destino, até que o limite definitivo seja alcançada e a palavra final seja dita, palavra que apaga da existência. Destino pior do que o que qualquer deus severo ou "maligno" possa planejar.

Ainda me arrepio de considerar que esta obra seja verdade. Antes de meus primeiros contatos, imaginei que almas fossem no inferno como ouro em nossos reinos mortais. Mero numerário para valer uma economia. Mas considerar o quanto é importante para aqueles que são desprovidos de vida ter contato com sentimentos, dos melhores e dos piores, nos dá orgulho. Somos temporários nesta terra, mas este curto tempo que chamamos de "vida" é incrivelmente poderoso. E os privados dela sabem melhor do que nós mesmos.

Contudo me assombra uma coisa. Algo que o Mestre Macetower observou antes de mim...

A obra da parede, em especial aquela que descreve o destino da primeira alma, daquela que basicamente forjou o surgimento do inferno como conhecemos... Foi escrita em primeira pessoa.

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O Julgamento do Entardecer.

Mensagem por dr_Hardman em Ter Set 09, 2014 12:58 pm

O Livro de Viagens do Justiceiro é um conjunto de pequenas crônicas. Possuía um estilo próprio, embora continuamente interagia tanto com os livros de desaventuras de Naron e Othen – especialmente aquele que diz a origem assombrosa do Deus dos Ardis – e mesmo as canções de cavalaria de Sargan. Parecem obras de outro autor, mas contidas no mesmo “universo lúdico” dos livros mais tradicionais do Teoqüentun.

Yius por vezes é visto como um mero andarilho que, por forças das circunstâncias é envolvido como observador em alguma pilhéria ou esquema de malandros mortais aproveitadores, e o desfecho normalmente era a trama sendo desmascarada pelas eventuais vítimas para então se revelar como quem era e determinar a punição a ser auferida ao malfeitor.

Vê-se na idéia lições de moral, como se o Deus da Justiça fosse o peso da espada sempre presente, e pronta para cumprir a justiça... Ou a vingança.

Este perfil parece mais com o do anjo Puniendi do que do Grande Tribuno. Ante a isso, lembro que o Teoqëntum é um conjunto de histórias com lições, não realidades. Mas lógico, eu aprecio estas crônicas mais conservadoras do que as hereges confusões de Naron e Othen.
Exceto por um:


O Julgamento do Entardecer.

Retornando a sua jornada, Yius escolheu um escudeiro para si, o jovem Fergus, que mostrou-se valoroso na aventura anterior. “O Julgamento do Entardecer” é apenas uma breve passagem de uma página e meia que liga – na forma de uma viagem entre a vila e o entreposto - os contos “Fergus, o Reto” e “Trinta e Sete Laranjas Para Três Irmãos”. E só nestes o personagem aparece.

Fergus e Yius cessam sua caminhada e levantam acampamento num platô rochoso acima da estrada. Como ainda restava alguma luz do dia, os dois sentaram-se à beira da formação e tentavam divisar o caminho ainda a percorrer.

O escudeiro não tinha a visão aguçada ou a vivência nas estradas do Deus da justiça, então, pouca atenção dava ao exercício. Mas flagrou-se fascinado pelo pôr-do-sol. Era verão, logo, ainda veria o astro-rei por muito tempo antes de anoitecer. Isso lembrou-lhe uma das lendas que ouvira sobre Yius.

- Mestre – falou ele. – É verdade que você dividiu o céu em dois com sua espada para que Sargan reinasse sobre o dia e a Rainha das trevas reinasse à noite?

Permita-me intervir neste trecho. Lantaris, Noror e Gorak normalmente não são nominalmente citados nos livros mais antigos. Imagino que seja por algum tabu religioso ou político.

- Sim. – concordou o Tribuno.

- As histórias dizem que foi com sua espada que você cortou o céu. – inclui Fergus. – Mas eu sempre achei que era... Exagero...

O jovem temia falar algo desrespeitoso ou que desagradasse o juiz de deuses. Mas ao contrário de tantos geniosos senhores do reino, Yius era impassível.

- As palavras, ao longo do tempo, são distorcidas e fantasiadas. – fala Yius.

- Bem, eu perguntei... – continua o jovem, retomando seu ponto. - ...Porque você teria dividido o céu à exata metade, para o dia e para a noite. Mas olhe só. Estamos no verão e ainda há sol. Se fosse um mês atrás, estaríamos em trevas tão profundas que só veríamos a fogueira e as estrelas.

- Sim. – concorda o Olhos Cinzentos. – Mas se fosse Inverno alto, estaríamos na escuridão várias léguas atrás. Tanto o Rei do Dia quanto a Rainha da Noite têm atividades que meras doze horas não bastam. Eu fui flexível com o tempo e horário. Mas ao longo do ano, os dois governam o céu por exatamente a mesma quantidade de tempo.

Fergus fica impressionado com a sabedoria de seu mestre.

- Eu vejo... – fala admirado. – Por isso nenhum dos dois questionou sua decisão!

- Oh, eles questionaram! – fala levianamente o tribuno. – Sargan até concordou com a divisão, mas queria governar por seis meses ininterruptos e que a sua inimiga fosse banida por esse período. Imagine como a Terra sofreria com um dia de seis meses... E a Rainha? Ela não queria sequer desistir da guerra! Dizia que o tempo de cada dia deveria variar com resultado de batalhas e contagem de corpos!

- E como você fez com que concordassem?

O impassível Deus da justiça assumiu um semblante pesado e assustador. Ele afastou o poncho e revelou a espada embainhada.

- Eu saquei a minha Espada e apresentei-a aos dois. – falou ele, com palavras pesadas.

Fergus não entendeu no começo, mas o perigo carregado naquele olhar era inegável. Quase poderia ser sentido no tato.

- Você ameaçou os dois deuses?!? – fala com assombro genuíno. Não imaginava o plácido Yius em atitude violenta e destemperada. – Não teve medo? Você estava em desigualdade!

O Tribuno fechou o semblante severo.

- Não deve jamais pensar que sentimentos, especialmente o medo, interferem meu julgamento se quer continuar como meu aprendiz. – falou ele. – Aquela era uma decisão sensata e calculada. Primeiro, porque eles conheciam meu poder!

- Sim... Mas eram dois deuses! – fala imprudentemente o escudeiro.

- Dois deuses como o Dia e a Noite. – Yius falava mais levianamente. - Dois que não atuariam juntos nem com um oponente ameaçando ambos. Dois que temiam que se levantassem a guarda contra a minha espada, teriam de abaixar à do vizinho. Duas personalidades eram duas frentes que se anulariam mutuamente e reiniciaria o círculo de guerras infinitamente. A terceira ameaça era uma situação que a teimosia dos dois não conseguiria conforto. E o resultado...

Yius aponta a linha do horizonte ao leste. Como se planejando o momento do desfecho, o vermelho do fim-do-dia começava a desaparecer. O céu assumia coloração púrpura, e em breve, o pretume total.

Em nossa doutrina hoje, todos os deuses respeitam o tribuno. Desde o destrutivo e caótico Gorak ao glorioso Sargan. Realmente não vislumbro o Senhor da Ordem, da Justiça e do Equilíbrio se valendo de ameaças ou de blefes. Imaginando que-  esse evento absurdo tivesse mesmo ocorrido - a estratégia (de combate) do Juiz de Deuses pareceu bem fundada... E imagino que ele chegasse a destruir os seus irmãos do Dia e da Noite. O Mundo seria outro, sem dúvida, se não tivesse luz e trevas no céu.

E isso tornaria as lendas verdadeiras. Yius DIVIDIU o Dia e a Noite com sua Espada. Mas não cortando o céu. Não chegou a tanto.

Eu cogito que “Fergus” possui grafia fonética de um deus menor antigo da região oeste de rhostara... Furgrous, cujo secto reinou entre bárbaros por bons duzentos anos na Era dos Reinos Antigos.

Furgrous era o Deus do Medo.

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